É engraçado.


Engraçado como me sinto uma bola de malabarismo nas mãos de um plano de vida que um dia me deixou cair. 
Engraçado como o corpo que outrora flutuava é hoje o primeiro a afundar, a não se encontrar e a preferir assim, perder-se num mar de desilusões e tempo perdido.
A corda que outrora separava as minhas mãos de um papagaio dançante ao vento é hoje a mesma que me, severamente, prende ambos os pulsos e me proíbe de voar. 

E digo que é engraçado porque pensei ter tudo sob controlo. Não gosto de desenhos e rascunhos inventados sobre os joelhos nem de castelos de areia que é levada pelo vento. Gosto de maquetes fixas em realidade. Gosto de metas e de planear cada traço até as alcançar.

Culpo a rotina? Culpo o tempo? Não.
Culpo-me a mim. E não deixo de me julgar. De julgar os meus passos errados com os quais não aprendo. Até a minha almofada me grita no silêncio da noite e me transtorna os sonhos que não quero ter. 

A rotina e o tempo não são desculpas para que tudo mude, não são desculpas para desistir à primeira dificuldade só porque é mais fácil largar tudo. A melhor desculpa é o peito vazio porque nunca será realmente uma desculpa, ninguém tem um peito vazio por culpa do tempo. Ninguém tem um peito vazio e culpa a rotina. Não há quem ou o que culpar mas tudo fica tão mais fácil e torna tudo tão mais leve mesmo quando se está vazio.

Coragem?

"Admiro a tua coragem. (...) Pessoalmente eu não teria metade da força que tu tiveste."

Tenho saudades de ouvir o mar beijar a areia, tenho saudades do som das palmeiras a medir forças com o vento, tenho saudades dos cafés ao final da tarde. Sinto falta de conduzir tendo como única companhia a música da rádio e de cruzar as pernas sentado num banco a admirar as estrelas pela noite dentro.

Tenho também saudades da companhia e das conversas com os meus avós, sinto falta até das pequenas discussões. Tenho muitas saudades dos meus dois irmãos que ainda não perceberam o quanto a vida os vai magoar se continuarem preguiçosos com os estudos. Morro de saudades dos meus amigos, das estúpidas gargalhadas, dos breves jantares que se transformava em longas horas de conversas. 

Mas não tenho saudades do país que me expulsou. Não sinto falta do trabalho que tinha porque eu sabia que ou o agarrava para sempre ou ficava no desemprego. Não sinto saudades da nossa televisão portuguesa que se tem degradado de ano para ano só dando importância a pseudo celebridades que pensam que são VIP só por terem aparecido na Casa dos Segredos. O teatro morreu: o riso permanece contra aqueles que tentam ainda enfrentar plateias com o seu talento. No litoral, pescadores batalham todos os dias contra a morte para conseguir meter um pão na mesa. As ambições padecem na hora em que o sonho saltita na mente e se desfaz em poeira diante dos olhos. 

Se Portugal oferecesse oportunidades ao invés de oferecer sol e areia eu estava hoje a viver com tudo aquilo que até um dia tive.

Enfim! Abraço-me, agora, a um país onde a pressa e a multiculturalidade são rotina. Milhões. Milhões de pessoas, milhões de passos, milhões de lugares, milhões de oportunidades. Nunca estive eu numa corda bamba (contra o tempo) e me senti tão seguro quanto me sinto aqui. Sinto que posso evoluir, crescer. 
Não odeio o meu País nem estou armado em Portuguesinho importante que quando vai de férias a Portugal tem a mania de falar inglês e criticar tudo. Mas estou feliz por ter deixado esse pequenino lugar no meu passado.

Obrigado por me terem mandado emigrar!

"E eu admiro a coragem de quem fica porque é preciso muita para continuar a gatinhar quando já se aprendeu a caminhar."



Blog fechado.

Então, como tudo tem um começo e um fim, despeço-me deste lado, deste canto. 
Talvez nos veremos em outro lugar, o mundo é tão grande. 
Abraços e obrigado a todos os que estiveram comigo.