Talvez autopreservação.

09:25

Encontrei-me sentado no abafado citroen zx do meu avô, como acompanhante numa longa jornada eu subterrei os meus pensamentos no livro que comprara no dia anterior. Já me encontrava na página 70 e fazia contas para quando o terminaria e poderia comprar logo outro. Bem, não interessa. 

O meu sentido de humor estava bem mais depravado do que aquele com que me deparei ao passar pela língua alcatroada diante do mar feroz. Os meus pensamentos remeteram-se à necessidade que tinha em tomar ar e já nada me incomodava nem alagava a mente. Fiquei feliz por isso. (...) As ondas que eram fortemente enviadas contra o rochedo e desfaziam-se em pequenas gotas que de vez em quando tocavam na estrada onde os carros, com atenção, passavam.

Eu, projectava o olhar em quase todas as direcções. Reparei, no entanto com olhar atento, numa ave que representava, numa quietude desconfortável, uma calma percepção do mundo. Passei por ela sem tempo de conseguir identificar a raça e sorri contra o vidro embaciado...

Mais à frente o carro parou perto do mar. Não fui eu que saí dele mas sim a criança que à muito não passeava assim com os avós. Não consegui conter dentro de mim a juventude e saltei para a areia molhada. Corri e mirava, lá em baixo, o mar revolto e as ondas de quatro ou cinco metros que ocupavam metade daquela pequena praia. Por vezes as lentes dos meus óculos eram alvos de pingas inocentes e isso não me incomodava.

Tive o prazer de comunicar abertamente com os meus avós e descobrir um pouco da história que a aldeia significava para eles. Foi bom partilhar, não só conhecimento mas um pouco de regateirice. Sabia bem dar-lhes a atenção que à muito não lhes dava e tenho a certeza que lhes soube tão bem quanto a mim.

Estava uma ventania confortável. Um doce temporal que à muito tempo não tinha o prazer de saborear. Foi muito bom.

Depois, precipitei o meu olhar para as letras daquele livro que lia confortavelmente no caminho para casa. E com isto posso declarar que a vida não passa de pontas soltas e por vezes o fio que parecia conduzir inevitavelmente ao coração é apenas uma corda entrelaçada que nos deixa completamente sozinhos no escuro.

Só não entendo como é que o feracidade dos dias, como o de hoje, me deixa tão calmo por dentro e apaga conflitos interiores totalmente.

(Claro que não poderia ter deixado o telemóvel quieto)




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16 comentários

  1. das fotos, a última é a minha favorita!
    e compreendo-te perfeitamente, prefiro dias assim, que me acalma e me metem um sorriso na cara, do que propriamente os dias calmos e serenos, além de os amar também.

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  2. pauloooooooooooooooo, a última foto é na praia dos buizinhos, ou algo parecido? :b

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  3. andas-te a passear meu anjo :D

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  4. Cada lugar bom pra sentar,refletir, meditar, ouvindo apenas o som do mar...

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  5. gostei, as fotos estão lindas.

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  6. Adoreeeei o texto, e as fotografias *-*
    <3

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  7. Sabes que partilhamos da mesma paixão.. aliás partilhamos muita coisa.. sentimentos, signos xD, amizade, carinho, simplicidade.. pronto não importa. xD
    És um grande amigo, um grande escritor e um grande companheiro :)
    Tenho que te agradecer de muitas coisas.. Obrigada, obrigada e obrigada.
    Ahh.. sem deixar para trás, o texto está a descrever óptimas sensações, e valores. Fotos.. perfeitas.
    Adoro-te amigo :)

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  8. Que sítio tão bonito +.+
    Eu acho que essas situações nos deixam mais calmos porque a Natureza tem sempre o poder de nos mostrar que não há conflitos só em nós, não há revoltas só em nós. E sentirmo-nos em sintonia com o que nos rodeia é apaziguador *
    Gostei muito do texto (:

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  9. Eu fiquei desiludida com o fim, mas adorei aquela cena. Amei amei o início, mas fiquei mesmo triste no fim. Acho que estava à espera de uma história de amor perfeita, e o filme foi só a consciencialização de que elas não existem, cabe-nos a nós lidar com as imperfeições delas.

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  10. Paulo, adoro, simplesmente, os teus textos.

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  11. adorei adorei adorei !
    sim até à 5ºparte só (:

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  12. bem escrito e com muito semtimento

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« A única pessoa que nunca comete erros é aquela que nunca faz nada. »

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