Metades

Nunca existiu nada e eu demorei demasiado tempo a aperceber-me disso. Todos os teus convites para tomar um café eram mascarados com a vontade de despir a roupa e ter alguém para te apreciar a carne, fazer fluir o suor pelo corpo e dizer o quanto gostava de todas as sensações daqueles momentos efémeros. Felizmente fiquei-me pelas tuas palavras e pela tua companhia num real café. E embora quente, não era dessa forma que eu pretendia ser aquecido. Mas também não pelos teus abraços, nem pelo teu corpo. Pretendia ser aquecido totalmente, arder interiormente, uma explosão de sensações; mas sensações boas e incontroláveis. Ao invés disso permanecemos pelas vontades e pelas metades. Metades de tempo, metades de desejos, metades de momentos. Era tanta metade que me sentia também eu incompleto. Incompleto a estar contigo, incompleto estando sem ti.




Eu entreguei-me como achava ser correto mas no amor não há essa coisa de certo e errado, o amor apenas é. Apenas existe, está ali, na sua melhor forma e é tão bom... Até que deixou de ser. E doeu, doeu pensar desistir, doeu virar as costas e nem vou enunciar quantas vezes tentei voltar atrás por ser bem mais fácil. Eu achava ter tentado de tudo quando na verdade isso era apenas uma desculpa para a minha preguiça de tentar. Para ser feliz é preciso ter coragem e eu não a tinha. Achei que estava perdido e tive medo, muito medo de te deixar e não me encontrar novamente. E só depois de eu soltar tudo o que achava ser paixão eu descobri o que era amar. Mas acordei a tempo de perceber que a pessoa que eu mais amava ali era eu; era a mim que eu queria satisfazer; era com a minha felicidade que eu sonhava. E ela não estava nem perto de ti, estava dentro de mim e eu só precisava partilha-la com quem me dá tudo e não metades porque para metade já basto eu.


Estou aqui, hoje, agora.


A tristeza é um sentimento muito fácil de adquirir e, assim sem parar, consegue alastrar-se por todo o meu corpo querendo-me fazer agarrar a cama, esconder debaixo dos lençóis e esperar que essa tempestade de lágrimas passe por mim sem causar muitos danos. Com a tristeza chega a saudade, chegam as más memórias e o pensamento de que a felicidade só serve aos outros. 
A minha memória é visitada por todos os "nãos" que não soube receber, por todos os momentos em que alguém partiu um ínfimo pedacinho do meu coração, por cada vez que alguma ideia não correu como planeado. As falhas, as lutas perdidas, os sonhos quebrados e, como cacos de vidro, tudo espalhado pelo chão da memória e eu de pézinhos descalços.
Deixo que essa dor tome conta de mim e aceito-a porque a felicidade parece estar a léguas. Então, só para não me sentir sozinho, tomo essa escuridão como minha amiga.
Porque sou cobarde. Fraco. Incapazes não são aqueles que, por dificuldades da vida, não conseguem pagar as propinas do curso da faculdade ou não conseguem, por demasiada dor, sair da cama de um hospital ou andar com as suas próprias pernas. Incapazes somos nós que agarramos a dor e metemo-la no bolso.
E não digo que chorar é sinal de fraqueza. Não digo que cair uma e outra vez seja coisa de gente fraca... Não. O que eu digo é que pensar em ser feliz é algo trabalhoso. Para ser feliz é preciso de ter coragem. Coragem de largar tudo, coragem de agarrar apenas a pessoa que mais importa: a pessoa que somos, a nossa essência.
Por vezes deixar aquela pessoa que já nos magoou tanta vez parece ser uma tortura mas gostamos de ir vivendo torturados por aquelas mãos que não parecem saber agarrar mais o nosso coração. Ou aquele amigo que vive a falar mal das nossas costas e nós bem sabemos mas parece muito complicado larga-lo e talvez nessa cidade não exista assim mais ninguém com os mesmos interesses que os nossos.
É muita responsabilidade e muita irresponsabilidade num instante escasso, num corpo só, num momento apenas. Mas talvez tudo o que seja preciso esteja mesmo à nossa frente, um abraço caloroso do sol e a promessa de que o dia de amanhã só será melhor se lutar por isso no dia de hoje. Estou aqui, hoje, agora. E estou porque quero, porque preciso e porque o amanhã ainda é uma incerteza.

Mãe.

Sempre me perguntaram se não doía e, mesmo engolindo em seco, a minha resposta era sempre negativa. Por vezes justificava-me e por outras deixava o não ser a última palavra a sair da minha boca. 
Inconscientemente, ao tocar no assunto, há algo dentro de mim que acorda e parece causar-me má disposição, um café que me caiu mal, um soco no estômago. Mas não posso dizer que seja dor, é um trago demasiado grande de água tomado sem sede que me atinge como se tivesse engolido um sopro do vento e me deixa sem ar.
Suspiro uma e outra vez e convenço a minha mente de que estou bem assim porque na verdade até estou. Sempre achei que a mais cruel mentira é aquela que tentamos convencer a nós mesmos pois sempre saberemos os dois lados da moeda que está em jogo mas por algum motivo recusamo-nos a ver.
Seja como for, ao fechar os olhos não existe mais nada e é desse instante que preciso para me recordar de tudo aquilo que se passou, de tudo aquilo que se foi com o vento. De como a pessoa que era suposto amar-me e proteger-me decidiu ser aquela que nem se lembra. E eu, por vezes, também tentava esquecer mas isso fazia com que a recordação se espetasse no meu peito e doesse. Sou apenas um pequeno barco embalado pelas ondas e pelo vento...
Então aprendi que aceitar era a solução pois a partir do momento em que aceitei lhe ser um desconhecido tudo parou de doer. Resta a saudade, resta a vontade de voltar atrás e não para mudar algumas coisas mas sim para poder vive-las de novo...