Sou infinito!

Descalço no topo de um penhasco prendo-me ao som do rebentar das ondas. O vento sacode-me os cabelos e, de olhos fechados, sinto o tempo a passar-me pelos braços esticados. Fugir-me-ia mesmo que o tentasse agarrar: o tempo não é um conjunto de borboletas que podem ser caçadas, o tempo é fumo. Sou instigado pelos dias que passam e por todos aqueles que anseio. Quero melhor, quero fazer melhor, quero o hoje, quero o tempo.

Acho fascinante admirar a linha onde o céu encontra a terra, pelo mar. Prendo essa linha no meu olhar, prendo-me ao horizonte: tão longe e mesmo ali, tão perto. De certo modo, fascinante e, por outro lado, assustadora. É uma linha longínqua alcançável por instantes e ao mesmo tempo infinita num para sempre que me deixa na incerteza de a conseguir alcançar. Ora o sol se expande no céu com os seus tons mais quentes ora a bruma do mar se prepara para embrulhar milhas até terra. 

Estou envolvido por essa linha, seja quente e ardente num pôr-do-sol, seja gelada num breu e bruma. Seja cor ou esplendor, seja negridão e angústia. Sejam mãos que me querem empurrar deste precipício, sejam asas que me queiram amparar a queda. Fico hipnotizado pelo infinito. Pela corrida de sonhos e pelo aglomerado de memórias que se atropelam à espera de me dar sentido. Acontecimentos, vontades, sentimentos, receios, dores, ilusões, ansiedades. É sede de infinito.

Vazio. Como um grão de areia contado na palma da mão, como um lençol branco estendido sob o relvado no verão. Inteiro. Como um botão de rosa preparado a abrir, como um livro acabado de escrever. E dentro deste peito cabe o mundo, cabe tudo. O vento sopra, não me abala. As ondas rugem, não me assustam. O tempo corre e eu sou infinito.

Esquecida Aldeia, Esquecida Vida

A chuva ampara-se sobre a calçada de uma aldeia esquecida à beira-mar, Porto Covo, ou outra qualquer onde ninguém dá a sua importância. As nuvens cobrem os céus e cá do cimo da aldeia, junto da igreja, ouvem-se as ondas do mar rebentar contra os rochedos. Furiosas, desejando a tempestade. 

Mas, de certo modo, a tempestade já está presente, as gaivotas pousam delinquentemente em todos os lugares, sujando, danificando, mostrando que esta terra lhes pertence. Os homens, de tão poucos que são, mantêm-se por baixo daquelas asas e deixam-se ser carregados pelos dias, como um rio sendo levado até ao oceano.

Esquecem-se de viver e preocupam-se em demasia com tudo aquilo que têm mas ainda mais com aquilo que, amanhã, poderão não ter. O pão e o vinho é mais suficiente que o agora, o estômago e a saúde é a satisfação que os eleva de dia para dia. Em certos casos escondem-se ao que lhes proporciona sorrisos e alegrias. A idade já lhes pesa e a pequena aldeia piscatória já só encontra tempestades.

Com ventos e agonias lamentam-se das rugas e das más recordações, lastimam não viver mas também não tentam fugir à rotina com medo de falhar. As mãos pouco agarram e os olhos pouco vêm. Os dias são levados com aquela pacata respiração sem emoção. Só resta a dor naquelas casas caiadas de branco de faixas azuis. O som, levemente se apaga e nem o vento toca nas altas palmeiras. É demasiada a calma, demasiado silêncio para aqueles corpos que ainda emanam vida e sonhos. 

Que sejam elevados da cadeira de madeira, que ergam a vontade de viver como quem ergue a cana de pesca e se prepara para apanhar o maior peixe que alguma vez pensara pescar. Que demonstrem saber sorrir e quando a vida se lembrar de trazer tempestades, lembre-nos que as colheitas só crescem com água, que os campos floridos são mais bonitos e que debaixo da chuva também se dança. 

A vida não é uma aldeia debaixo de tempestades até que nos esqueçamos, realmente, de como bom é viver.


É sorte!

Perguntas-me o que quero dizer com os textos que escrevo e assim que termino de te explicar olhas-me seriamente e perguntas "Não podias ter escrito logo isso?" É verdade que escrevo demasiado nas entrelinhas, os meus textos são para ser lidos duas ou três vezes mas isso é porque escondem demasiado de mim. São gestos, olhares e sorrisos que tenho no peito. São histórias e planos escondidos no fundo da gaveta. São mágoas, ilusões e quedas que não consigo retratar. Fragmentos da minha personalidade, cacos de vidro partido sobre a mesa, cera derretida ao calor do pavio queimado, alma devorada por esperança e pensamentos.

Então hoje escrevo-te o que penso, sem efeites e sem mantos a cobrir. Só com verbos no presente, com intenções no futuro e agradecimento ao passado.

Sou um sortudo por te ter ao meu lado: os meus dias só começam quando recebo uns bons dias teus e as minhas noites são sempre mais coloridas quando terminam com um beijo dos teus lábios. Não há dor que me conquiste enquanto seguras a minha mão e sinto-me capaz de tudo se estiveres presente.

Tenho demasiados planos para nós: quero uma casa onde partilharemos não só a cama mas também a rotina, quero mil e uma viagens a destinos aos quais nunca pensei ir só para te poder beijar em vários pontos do globo. Quero prender os meus dedos nos teus a ver filmes ao sábado à noite, quero uma reunião de amigos a cada mês para partilharmos histórias e piadas. Quero o meu peito como abrigo à tua cabeça, quero as minhas mãos no teu cabelo, o teu corpo perdido no meu, a minha alma necessitada da tua.

Mas o que quero mesmo é isto, conjugar o verbo amar no presente. Amar tudo aquilo que fazemos, aquilo que conversamos, aquilo que sentimos e planeamos... Quero o que já temos, quero um nós no meio de tantos sós.

Agradeço-te não só por teres entrado na minha vida mas por decidires ficar e me deixares fazer parte de ti. E também agradeço ao meu passado por todo o azar que me proporcionou pois só assim, com ele, aprendi hoje a dar valor ao que realmente posso chamar de sorte.