Descalço no topo de um penhasco prendo-me ao som do rebentar das ondas. O vento sacode-me os cabelos e, de olhos fechados, sinto o tempo a passar-me pelos braços esticados. Fugir-me-ia mesmo que o tentasse agarrar: o tempo não é um conjunto de borboletas que podem ser caçadas, o tempo é fumo. Sou instigado pelos dias que passam e por todos aqueles que anseio. Quero melhor, quero fazer melhor, quero o hoje, quero o tempo.
Acho fascinante admirar a linha onde o céu encontra a terra, pelo mar. Prendo essa linha no meu olhar, prendo-me ao horizonte: tão longe e mesmo ali, tão perto. De certo modo, fascinante e, por outro lado, assustadora. É uma linha longínqua alcançável por instantes e ao mesmo tempo infinita num para sempre que me deixa na incerteza de a conseguir alcançar. Ora o sol se expande no céu com os seus tons mais quentes ora a bruma do mar se prepara para embrulhar milhas até terra.
Estou envolvido por essa linha, seja quente e ardente num pôr-do-sol, seja gelada num breu e bruma. Seja cor ou esplendor, seja negridão e angústia. Sejam mãos que me querem empurrar deste precipício, sejam asas que me queiram amparar a queda. Fico hipnotizado pelo infinito. Pela corrida de sonhos e pelo aglomerado de memórias que se atropelam à espera de me dar sentido. Acontecimentos, vontades, sentimentos, receios, dores, ilusões, ansiedades. É sede de infinito.
Vazio. Como um grão de areia contado na palma da mão, como um lençol branco estendido sob o relvado no verão. Inteiro. Como um botão de rosa preparado a abrir, como um livro acabado de escrever. E dentro deste peito cabe o mundo, cabe tudo. O vento sopra, não me abala. As ondas rugem, não me assustam. O tempo corre e eu sou infinito.
- 16:05
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