Procura-se.


Anúncios por todas as esquinas,
procurei-te em cada sopro do vento,
em cada sorriso desconhecido.
E ninguém deu pela tua falta, até ser eu a precisar de ti.

Procurei-te em cada queda de água, fria ou quente,
seja ela de memórias ou de ilusões.
Procurei-te nas minhas confusas estradas,
de tempestades e turbilhões.

Procurei-te pelas cartas chegadas
e pelos postais do tempo.
Procurei-te por telefonemas
e no canto do pensamento.

Ninguém deu pela tua falta, 
até ser eu a precisar de ti,
e quanto mais te procurava
 menos eu entendia.

O mar não é só azul,
e eu não tenho só uma emoção.
Hoje sou tela branca,
e amanhã terei o meu coração.




Que o vento leve.

Que te leve o vento.
Os beijos pedidos no vento da noite.
Um gesto, um toque de ar.
 Abraços no desejo do coração.
Uma leve palavra e um sorriso para terminar.


Que o vento leve até ti, aquilo que roubou de mim.
Seja carinho, seja saudade.
Seja amor, seja vontade.

De Dor em Dor

Dói. Dói uma e outra vez. E é quando penso que já não dói mais, que a saudade ataca a minha mente sã e desfere ainda mais golpes no coração ofegante. Torno a perder-me na estrada a caminho da felicidade, e sou viajante desamparado, sem onde cair morto porque a hora ainda está para chegar. Mas parece. Poderia jurar que não vejo mais nada para além da estrada que percorro com a dor, poderia jurar que o final seria aqui e agora. Mas claro que o meu pedido nunca é satisfeito. E volta a dor. Esta dor que me acompanha sempre e nunca me deixa só. Não é bengala onde me apoio mas pedra que se enfia debaixo do peito do pé. E eu tento aguentar, mesmo sabendo que terei de voltar a parar e limpar as feridas. O caminho não termina nunca. Nem ele termina, nem eu. Não há hipótese de retroceder. Pela primeira vez perco-me numa estrada só de ida, não por culpa do quente sol ou da falta de hidratação mas pelas más condições em que deixo o coração continuar a bater. Mas ainda não é hora para lhe dar descanso. Pois ele pede-me para continuar a aguentar. E se consegue ele, porque não consigo eu?


Mudança

As coisas estão diferentes. Mas não tenho a certeza se fui eu que mudei, talvez tenha deixado de dar tanta importância às coisas, ou então, talvez tenha sido a minha maneira de olhar os outros que se tenha alterado. Talvez eu esteja a dar mais valor àquilo que posso fazer, ao que está ao meu alcance e às pessoas que, verdadeiramente, estão comigo. E tenha parado de ser delinquente ao ponto de pensar que a minha vida está no futuro. Mas como poderia ter futuro sem aproveitar o presente? Iria deixar passar sobre os carris, a minha vida enquanto os sorrisos acenavam pelos vidros das carruagens embaciadas ou passaria a traçar e a caminhar sobre a minha vontade e os meus desejos? Claro que não pensei duas vezes, claro que não olhei para trás quando escolhi a minha opção. E agora, não me lembro quanto tempo passou. Sei que estou no caminho certo embora não tenha certezas de nada. Talvez esteja a ficar mais forte, ou talvez já não tenha tanto medo de viver. Ou então as duas hipóteses estão certas. O que sei é que as coisas estão diferentes. Não sei se será dos meus olhos, se será da minha cabeça ou se é o mundo que, finalmente, se decidiu mostrar para mim de outra maneira.

Sem Sonhar.

Os dias têm sido maçadores. A calma, a quietação e o silêncio têm-me destruído por dentro. Procuro agitação, uma linha quebrada neste livro imenso. Procuro um espaço de tempo, podendo ser curto ou de grande duração, para fugir do tempo e nunca mais voltar. Preciso quebrar a rotina e tornar-me dono dos meus próprios passos. Preciso dispensar o café e manter-me a dormir para encontrar os sonhos que perdi. Sonhos que não controlei e se tornaram demasiado grandes, construídos por cima das minhas fracas mãos que não os puderam segurar. Caíram, partiram-se e perderam-se os pedaços no vento. Ultimamente não os tenho procurado por falta de capacidade para os controlar. Pois homem na terra com sonhos no céu, é como vaso vazio esperando algo nascer...


Pirateando Corações.

Iludi-me que pirata queria ser,
arranjei uma pequena embarcação
e o mundo fui tentar conhecer.
Parti apenas para não voltar.

Muitas hipóteses, muitas apostas,
muitos sonhos, poucos mantimentos de ida.
E ainda não tinha partido,
e já a saudade era nutrida.

Sabia exactamente por onde ia,
mas desconhecia os seus perigos,
aquele mar eu já conhecia.
Mas parti apenas para não voltar.

E depois de tanta volta,
nem o coração escapou.
Pois o barco era pequeno,
e o pirata se apaixonou.


Uma Tela Diferente

Pensei que as coisas iriam ser diferentes, só desta vez. Pensei que iria ter alguém com quem partilhar verdadeiros sorrisos e desfrutar de únicos momentos. Talvez contasse os minutos até estar na sua presença e sentisse saudades logo de seguida ao aceno de despedida. Queria partilhar segredos e esconder as suas chaves para ver a sua reacção e a cara de preocupação enquanto eu censurava o riso. Queria limpar-lhe o canto da boca depois de se ter sujado com o gelado que iríamos partilhar. Pensei que tudo seria diferente agora que os quilómetros se transformaram e míseros metros. Pensei que a tela dos meus sorrisos seria o céu em vez das escuras paredes do meu quarto. Mas enganei-me. E continuo à espera da sua mão na minha, continuo a olhar para o vazio tentando preenche-lo com cores que não tenho para o pintar. Continuo à espera, com a dor no peito e o sorriso alugado na cara. Continuo à espera mesmo sabendo que na paragem onde me sento o autocarro já não passa.



Borboletas.

Ele saiu para caçar insectos. Sempre conseguia chegar a casa com um ou dois dentro do seu pequeno e seguro pote. A mãe pedia-lhe para manter os bichos longe da mesa de jantar e, consequentemente, do quarto, da sala, da casa. A mãe não queria por perto tais seres perigosos. Não por ela, mas pelo pequeno menino. E o que ela não sabia é que também ele tinha medo, pois saia para caçar borboletas mas encontrava-se perante a tentação de apanhar todos os outros também. Não porque quisesse mas porque precisava. Porque há necessidade de experimentar coisas novas. E todos os insectos que caçava tinham nomes - a ilusão, a mágoa, a solidão, o desespero, entre outros. E ele apenas saia para caçar borboletas. Às quais chamava de amor. E sempre chegava frustrado por trazer todos os outros. 

Com as mãos sujas de vermelho, certo dia, a mãe lhe pergunta:
- De novo?
- Apertei-o demais. Então ele parou. E agora, não bate mais.


Segurança em Excesso

A frustração acompanha o amor não retribuído. A tentativa falhada. O acto de tropeçar nos próprios pés. Quem gosta, esforça-se para estar presente. E a cada palavra recebida, menos bem disposta, é sujeita a uma procura da causa, para serem encontradas forças para levantar a sua tristeza e o seu mau humor. 

A cada problema encontrado, é procurada uma solução eficaz para que o sorriso volte à sua casa. As mãos confusas, estão a tentar aquecer aquelas que sempre parecem frias. 
Mas o esquecimento prevalece. E por vezes até se poderá lembrar que, do outro lado, existe quem se preocupe, quem queira bem, quem goste. Mas que não seja ao início da madrugada em que não existe mais ninguém a quem recorrer e o sono não aparece nunca, mas pela hora de acordar e que, sorrindo, sejam desejados os bons dias. 
No entanto, não passará disso. De sorrisos e palavras tão pouco cuidadas. 

Porque é bom saber que alguém está presente, é bom saber que poderemos contar sempre com outras mãos nas nossas. Mas torna-se frustrante saber que continuaremos a ser tratados como segunda ou terceira opção. E tudo isto porque há segurança de mais. Porque essa pessoa está segura de que estamos presentes e nós permanecemos inseguros atrás, fazendo tudo bem para que o seu sorriso nos preencha o dia. 


Então é preciso quebrar essa confiança. Cortar a segurança de que lá sempre estaremos para que note a nossa falta. Caminhar por estradas opostas sempre de costas viradas e sem olhar para trás. Apenas para que, sem certezas, ver se essa pessoa se vira para nós e caminha na nossa direcção. 
Por vezes é preciso fugir, só para ter a certeza de quem vem atrás. 
E quem não vier, é porque nunca teve intenções de ficar. 


Eu gostava da sua companhia.

« Talvez eu gostasse de mais da sua companhia. Mas não era só disso e eu tenho a certeza. Eu gostava de o ter deitado ao meu lado e de, lentamente, caminhar os meus dedos no seu braço; de lhe tocar no pescoço tão suavemente com uma erva arrancada e o ver rir, sendo consumido pelas cócegas que tinha no pescoço. E gostava dos seus olhos a brilhar enquanto fitava o céu e decifrava os barulhos dos animais pela floresta. E houve alturas em que também eu já os decorava. Não porque passássemos ali, naquele lugar, a maior parte do tempo, mas porque nos dedicávamos a ele com todas as forças que tínhamos. Eu gostava de vê-lo sorrir para mim e tornar-me egoísta quanto a isso não deixando que ninguém mo roubasse. 

Eu gostava de o ter aqui hoje... porque o destino foi escrito sem que pudéssemos parar o tempo. 
Mas agora estou a sorrir. Por mais que saudade aperte e as lágrimas escorram. Eu estou a sorrir porque as recordações que tenho dele são as melhores que alguma vez tive. E sorrio porque sei que fiz de tudo o que pude para tentar mante-lo comigo...

E talvez eu gostasse da sua companhia. 
Mas aquilo que eu mais apreciava, era o seu coração. Que levara um pedaço do meu. »



Este é um pedaço de algo que eu estou a escrever.
Espero que gostem.
Bom final de semana! 

Açúcar

Eu costumava escrever sobre amor. Não sobre aquele típico sentimento que dói sem parar ou que é típico de filme romântico (muito pouco realista). Eu escrevia sobre as vantagens da dor, de como todas as quedas nos ajudavam a segurar firme, o mastro da felicidade. Eu escrevia sobre a felicidade cigana e o seu desejo de partir. Escrevia todas as partidas que forçavam as lágrimas devido às recordações emolduradas. E escrevia sobre todas as recordações que continuavam presentes e que nos continuavam a fazer amar. E hoje, já não o sei fazer.  
Nestes últimos dias, tenho-me sentado à mesa e no café deito todo o açúcar. Tomo-o quase doce, mesmo a escaldar. Mas e se passar a deitar muito menos açúcar? Ou toma-lo depois de o deixar arrefecer? O café será o mesmo. Mas não terá a sua dose de doce ou o seu intenso calor. 
E assim é o amor. Pode ser aceite enquanto está quente, podemos acarinha-lo e torna-lo mais feliz, mais doce. Ou podemos aguardar, tomando-o a pequenos, quase inexistentes, beijos enquanto arrefece e perde a intensidade.
Mas a dose certa será sempre aquela que decidirmos dar. E sendo açúcar ou café, pouco importa. E não importa a razão pela qual se conhecem, apenas importam os motivos pelos quais continuam juntos. 
Pelo doce de um, e pela intensidade do outro. 
Ou pelo amor dos dois.


Ando Longe, só isso.

Olá queridos seguidores. 

Parte de vós, os que me acompanham, já devem ter estranhado a minha ausência. Pois é. Até eu tenho estranhado o tempo que fico fora daqui (blogosfera). No entanto tenho andado à procura de emprego e quando não ando não tenho paciência nem coragem para mais nada porque me sinto desmotivado e completamente desamparado. Nos anos em que andei à escola sempre fui dos melhores alunos, sempre estive confiante e sorridente para um futuro que tomei como garantido. No entanto, hoje, já não é bem assim. Nada ganhei com o bom aproveitamento se não tenho quem o valorize além de mim mesmo. Não me arrependo, claro, dos passos que dei, bem... da maioria deles. E hoje se soubesse que estaria aqui, neste lugar, teria feito algo para mudar isso. 
Enfim. Só queria dizer que não me esqueci e queria pedir desculpa por não vos ter visitado nem retribuído os comentários mas não ando com disposição. 

Um grande abraço a todos.

Paulo

Correndo Sem Tempo

Por vezes é necessário alterar a direcção que temos tomado, saber fugir. Aprender a saltar barreiras que não as impostas por nós mesmos e roubar a rosa ao vizinho do lado na corrida contra o tempo. E sem parar, continuar a pular cercas diversas, apoiando inteiramente os pés no chão e evitar quedas em buracos profundos. E só assim, no meio de toda a correria estonteante, no meio da corrida contra as pingas de chuva que descem pelos vidros da janela, saberemos o que não podemos deixar para trás. 

É nesse momento, em que tudo parece desvanecer-se pelos olhos velozes, que o som se torna diferente. Pois não existem só os meus pés a tocar no chão, as minhas mãos a tocar nas coisas por onde passo, e as minhas arfadas gélidas, existe algo mais. E a mão, finalmente, é segurada por outra, e talvez por outra, ou outra mais. Porque não importa o trajecto, não importa a posição dos ponteiros, se não estivermos sozinhos antes da corrida, também não estaremos quando esta suceder. E se estivermos, e se não houver outra mão a correr com a nossa, significa que, talvez, nunca, verdadeiramente, tenhamos estados acompanhados.




Pés de Noite

Os olhos pesados são confrontados pela vontade de ver, no silêncio da noite, tacteio a escuridão à procura do telemóvel escondido. Suspiro enquanto pisco os olhos antes de clicar em alguma tecla que active o visor. E quando o faço, sempre me arrependo. Não é o impacto da luz que me faz fechar os olhos mas sim a quebra das expectativas.

Gostava de ter notícias suas. Uma ligação perdida ou uma mensagem divagante. Podendo não conter qualquer informação que justificasse acordar todas aquelas horas. Podendo até ser algo desinteressante que pudesse esperar pelo sol. Mas poderia ter, queria ter. Talvez uma novidade ou outra. Talvez até dissesse que sente a minha falta. Ou talvez não dissesse nada; como sempre.

E como se fossem poucas as vezes que acordo durante a noite e me lembro do que sinto, assim que o dia se apresenta, olhar-lhe é a primeira coisa que faço. É verdade que preciso ver as horas para decidir se me levanto ou se continuo protegido pelos lençóis. Mas não é para o relógio que olho mas para o canto do visor onde costuma aparecer a mensagem, a ligação. E onde resta o vazio. 

Um vazio tão desinteressante e profundo que mesmo não contendo nada, é para lá que eu atiro tudo. E deixo toda essa roupa destrambelhada, fora dos cabides desajeitados. Sempre sem organização, vou atirando a roupa. Não me lembro da vestir, nem me lembro de acordar. Não porque passe a vida a dormir, mas porque passo a vida a sonhar. E mesmo depois das desilusões passadas, na noite que se avizinha, talvez o que eu queira não seja a confirmação da sua presença, mas motivos para organizar tudo aquilo que o sentimento me obrigou a desarrumar. 




Saudades.

Claro que sinto a sua falta. Também nunca o neguei. Mas há certos momentos da vida em que é preferível andar descalço que com um calçado desconfortável. O sentimento permanece intacto e, arrogantemente, persiste em ficar. Já deixei de o expulsar há imenso tempo, se é que alguma vez tentei, porque mesmo que doa, relembra-me dos bons momentos. E é, talvez, só por isso que doa tanto. Porque houveram bons momentos, talvez dos melhores. Mas se acabou, se o ponto final já se apresentou, de que vale tentar torna-lo em reticências? De que vale enrolar uma história da qual o leitor já tomou o final como garantido e se sente feliz concretizado? E este sentimento não passa de um conjunto de histórias, de momentos partilhados e sorrisos sem fim. Não é fácil dizer adeus, mas por vezes é necessário saber deixar partir quando as peças deixam de encaixar. Voltava atrás? Voltava. Mas depois penso se esta dor não terá sido importante para me ter feito chegar aqui, para me ter feito crescer tanto. E talvez voltar atrás não seja tão boa ideia, talvez lutar seja a solução. Ou talvez seja apenas eu a voltar aos antigos e rotos sapatos desconfortáveis. Talvez os descalce, talvez depois de caminhar um pouco e mesmo com a dor... saciar um pouco da saudade.



Mudança, não para hoje.

Gostava de sacudir a vida e ver que coisas caiam e que coisas se continuavam a agarrar a mim para ter a certeza daquilo com a qual posso contar. Acho que hoje apenas gostava de tirar a roupa, encontrar a verdade despida de anexos e questões. Colocar tudo a nu, como se costuma dizer. Talvez quebrar a maldita rotina que me torna tão monótono alterar hábitos e costumes. 

E embora a mudança não seja fácil para ninguém, ela é necessária. Mesmo depois do pôr-do-sol, o nascer está certo. Pode demorar, a noite pode ser silenciosa demais para uma mente ruidosa mas ela terminará com as cortinas incendiadas pelo sol, novamente beijando os dias.

Por vezes os passos são incertos e as rosas ficam secas, perdem a cor, a vida. Mas enquanto houver motivos para continuar a caminhar, não vejo porque não. E se tiver de mudar, que seja de maneira a não deixar de ser eu. Porque o mesmo sol que vai, é o mesmo que vem.

Mas talvez não sacuda a vida, não por medo daquilo que possa perder, mas daquilo que se vá por querer. Talvez não a sacuda hoje, no entanto o pó parece começar a acumular...



Um toque.


Um último mergulho,
O toque no fundo,
Só para sentir o gosto,
Para depois acordar...

De olhos fechados,
Num mundo em construção
Onde paredes não há
Nem limites de imaginação.

Sendo eu.
Sabendo o que quero ser,
Não sei quem sou.



E Depois de Tudo...

Por vezes as discussões eram muitas, o seu tom de voz ultrapassava sempre o teu, vias a sua cara formar-se numa máscara de raiva e stresse. As rugas na sua testa, os olhos semicerrados de desconfiança. Outras vezes arrumava a tua confusão e perdia-te objetos que teimas em guardar. Às vezes atrasava-se para chegar ao café, ou ao banco de jardim onde ficavam horas sem falar, apenas a ler as palavras de um livro rabiscado e as emoções um do outro. « Não tens relógio? » Perguntavas. E a única resposta era um esboço de um sorriso nos lábios. Por vezes os ciúmes tomavam conta de ti porque não sabias do seu paradeiro, ou com quem estava; ou então até sabias e ai o motivo ainda era maior. E às vezes esqueciam-se um do outro, adormeciam separados, cansados ou preocupados. E embora demonstrassem sempre o que sentiam, nada parecia ser suficiente para o outro. Então, as mãos acabaram por se soltar e agora já ninguém se esquece porque não há nada para esquecer. Já não se atrasam porque não existe nada combinado. Já não perdes objetos porque não há ninguém a partilha-los contigo. Já não discutem porque não têm de chegar a consenso algum, a lado nenhum. E no entanto é a partir do momento em que parece não haver mais nada que o amor te toca no peito e diz «Eu ainda aqui estou».



De Cristal, ou não.

Sabia ser diferente... E não fora o simples facto de ter uns sapatos diferentes dos outros. E por diferente não quero dizer a cor, o estilo. Mas o próprio sapato em si. Os outros iguais, de cores semelhantes e feitios praticamente concebidos à imagem do anterior. E os meus. Totalmente diferentes. Com a sola coberta de terra molhada e pedrinhas fincadas em cada espacinho livre. Todos os outros organizados, juntos da parede. Esquerdo e direito, esquerdo e direito, já eu quando os descalçava, por vezes, deixava-os um em cima do outro, mesmo que um pingando no outro aquela água da chuva guardada em pequenas poças. Sempre tão desorganizado, diziam os outros. Eu fingia não ouvir, pegava nos sapatos, calçava-os e esquecia-me de atar os atacadores que ficavam sujos de rolar na poeira do chão. Por vezes tropeçava neles e isso fazia-me parar, sentar à beira da estrada enquanto outras vidas sorriam contornando a minha, mas quando me levantava, de cordões atados, sabia que eram horas de voltar. E a batalha recomeçava de novo porque todas as pedras, toda a sujidade, todas as quedas são necessárias para uma verdadeira conquista, para o, tão esperado, encontro do sonho. 




Caminhos de Vidro

« A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante. As vezes que tentei morrer foi por não poder suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que eu gosto - mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. »
Caio Fernando Abreu

E hoje, num quarto de vidro, os movimentos involuntários tendem em destruir tanto em tão pouco. Sem controlo. Sem vontade. Agendo o futuro para logo.